Dormir com as galinhas e acordar com os galos. Fui criado numa casa em que havia um grande galinheiro, xodó do meu avô espanhol, que vivia repetindo essa frase, cujo significado era dormir cedo e acordar mais cedo ainda.
Um dia desses acordei ainda de noite e, no meio do frio, resolvi caminhar para ver o nascer do sol. Só que os cães ferozes do dono da casa me obrigaram a voltar correndo. Sabendo que o portão tinha um controle, peguei a chave do carro, fui na ponta dos pés até a garagem no melhor estilo Pantera Cor de Rosa, e me enfiei dentro do carro, ouvindo o barulho das patas e a respiração ofegante dos dois cachorros vindo na minha direção. Sai da propriedade e fui com o carro para um lugar bem alto para admirar o alvorecer. Só que estava me sentindo o próprio urbanóide, fechado dentro do carro sem sentir o ar puro da manhã de inverno. Tomei coragem e sai para caminhar, ainda com a lembrança dos dentes daqueles dois cachorros me olhando de forma ameaçadora. Por precaução, coloquei duas pedras no bolso e fui andando com um tronco de madeira na mão, vai que eles tinham algum irmão pela redondeza…
Pouco a pouco, minha respiração voltou ao normal, fui me esquecendo dos cachorros e começando a ouvir o som dos galos cacarejando. Ainda não havia nenhum raio de luz, mas o primeiro galo já anunciava uma nova manhã. Depois, outro galo, mais outro, mais outro. Era como um efeito surround, era como várias caixas de som instaladas em diferentes cantos daquele planalto. Um galo se comunicando com o outro. Cantava a plenos pulmões de um canto e parava. Em seguida, de outro ponto, um segundo galo também soltava seu cacarejo. Eram vários galos, criando uma corrente de som, comunicando o nascer do dia. Lembrei-me dos tambores indígenas, lembrei-me dos sinais de fumaça, em que uma tribo se comunicava com a outra. Aquele som dos galos, preenchia todos os espaços e fazia trilha de fundo para celebrar a aurora, para tecer a manhã, para homenagear como que com trombetas a chegada de sua majestade o Sol.