Ninguém faz idéia do que era a estrada velha Santos/Rio. Aquilo não era uma estrada, mas, sim, uma aventura. Hoje, conhecida por todo mundo como Rio/Santos, toda asfaltada, cheia de bares , restaurante e radares é muito mais segura e trafegável, com dois pontos clássicos de paradas: São Lourenço e Boracéia, respectivamente o Guarujá e a Praia Grande do Litoral Norte.
Digo Santos/Rio porque era o meu ponto de partida. E, por 3 vezes, fui pingando de praia em praia até Paraty, já no estado do Rio de Janeiro. Me sentia o próprio desbravador , superando todos os obstáculos com o meu Fusca azul calcinha:pontes de madeira, lombadas, subidas íngremes, desníveis de bancos de areia e curvas fechadas sem acostamento nem cerca de proteção. Adrenalina pura. No som do gravador, um Yes ao vivo no talo, para aliviar a tensão, com a voz em falsete de Jon Anderson cantando Soon.
Boa parte do trajeto era feito pela praia, na areia dura, com a água do mar batendo nos pneus. Algumas vezes vi carros atolados, sendo sugados pela areia, com o dono desesperado jogando cordas para os motoristas dos outros carros amarrá-las aos para-choques na tentativa de desencalhar o veículo quase submerso.Numa dessas tentativas, meu valente Fusca ficou sem o para-choque traseiro.
Levava algumas tábuas resistentes no chão do banco de trás. Sempre que atolava, calçava o pneu, dava uma ré e ultrapassava o buraco. Depois, voltava para pegar o pedaço de madeira de volta e seguir viagem, agora com Steve Howe dando um solo magistral de guitarra, ainda com o Yes rolando.
Quando ia caindo a tarde, buscávamos um lugar para armar a barraca ou batíamos à porta de uma pousada caiçara que já praticava a idéia do Airbnb e alugava quartos para o pessoal de fora.
A comida era um PF local, com peixe frito, arroz, feijão, tomate e alface. De sobremesa, bananada. Banho ruim, tomávamos em chuveiro da casa ou do camping . Banho bom, nas várias cachoeiras pelo caminho.
Essa aventura geralmente começava lá pelo meio do mês de janeiro e ia até um pouco antes do Carnaval, no começo de fevereiro. O dinheiro era pouco, mais para gasolina , com a primeira parada para abastecimento num posto fuleiro de Barra do Sahy, sempre com filas.
Se tinha onda, íamos para a água. Se o mar estava calmo, desbravávamos cada canto de cada uma das praias do quase deserto Litoral Norte e à noite fazíamos fogueira e alguém tocava violão. Era importante fazer amizade com alguns caiçaras, convidá-los para a roda. Eles vendiam peixe e bananas. Fazíamos fogueira com o peixe no vapor embrulhado nas folhas de bananeira e convidávamos os caiçaras para comerem com a gente.
Tudo era calmo. O som de fundo era o barulho do mar. E a diversão à noite era deitar na areia ,olhar as estrelas e falar bobagem. Ninguém ali tinha pressa para nada. Só corremos mesmo no dia em que vimos de dentro do mar a nossa barraca pegando fogo, por um descuido de alguém. Remamos forte, saímos ofegantes da água, tentamos abafar o fogo…mas já era tarde demais,nem as comidas deu para salvar.
Na volta antecipada para casa, lembramos que ainda faltavam 5 prestações a serem pagas da barraca queimada. PQP, um amigo meu tirou o Yes do gravador e colocou Deep Purple, logo na faixa Smoke on the Water