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Stones

O cara que inventou o fracionamento do tempo é um gênio. Pois só assim, à cada 365 dias, nós acreditamos que tudo vai mudar para melhor, que um novo ano vai nos devolver a fé e a esperança e que tudo aquilo que não conseguimos irá se realizar. Nunca gostei muito dessas comemorações de datas redondas, como se o simples fato de completar 40, 50 ou 60 anos me obrigasse a mudar de padrões e atitudes. Agora tá ficando velhinho, agora ficou para titia, agora tem que ter mais responsabilidade, agora tem que pensar na saúde, agora não é certo usar esse tipo de roupa,  agora tem que isso e aquilo. Um saco, uma cagação de regra desnecessária.

Além de saúde, o que você precisa mesmo é de competência e sorte. Talento é a soma de competência com sorte. E isso você tem que ir atrás, independente da idade.

E como não gosto de receber parabéns nem ser o centro das atenções, aproveito o meu aniversário para fugir, sumir do mapa. Só que, naquele ano, era a comemoração de um desses números redondos. Ia pegar estrada sozinho,  algumas horas de viagem.Então resolvi fazer uma homenagem a mim mesmo: vasculhei na minha coleção de CDs e peguei um CD triplo com uma coletânea dos maiores hits dos Rolling Stones de todos os tempos, desde os anos 60 até os dias atuais. É um CD com um gorila na capa, que parece o King-Kong.

Sozinho no carro, fim de tarde, coloquei o CD no último volume. Comecei pelos primeiros hits e fui vindo, música por música., tomando o cuidado de não acelerar muito e tomar multa.  De uma forma incrível, cada faixa me trazia uma lembrança, um momento leve da minha vida.Sempre gostei dos Beatles e de muitos outros artistas  de diferentes estilos musicais.

Mas os Stones- e só descobri isso naquela viagem-  é a trilha sonora da minha vida. No trajeto, repeti algumas músicas e quando cheguei ao meu destino tinha acabado de concluir o terceiro CD, com os hits mais recentes.

Dia desses, minha filha mais velha me alertou que, durante a pandemia, os Stones tinham lançado uma nova música e um novo clip. Ouvimos juntos a novidade. E ao final ela disse que havia gostado de Living in a Ghost Town, só que a música  não soava original para ela, parecia com uma ou com algumas outras músicas que ela já havia ouvido na voz do mesmo Mick Jagger.

Tentei explicar para ela que a magia estava exatamente ali, que eles tocavam juntos há mais de 50 anos, que , da banda original um havia morrido e o outro caído fora, e que ninguém confundia os Stones com nenhuma outra banda, simplesmente porque eles eram inimitáveis. 

Sinto que ela prefere o Alok. It’s only rock n’roll…but i like it…

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