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Pelada

Depois que você adquire um certo status profissional, os veículos de comunicação e mais um punhado de empresas começam a te mandar e-mails para que você os preencha com os seus dados pessoais. Embora relutante no começo, por me sentir como um peixe que morde a isca digital , passei a fornecer os meus dados pessoais. Sabia que o único interesse dessas empresas era capturar leads, mas sabia também que poderia ganhar alguns presentes , pelo menos no dia do meu aniversário,nem que fosse um cartão menos óbvio e mais criativo. E não deu outra: ganhei muito chocolate-  coisa que adoro – ,  canetas, agendas, telas de pintura, fotografias assinadas por renomados profissionais, panetones e até um queijo parmesão inteiro, gigante, desses que você só encontra em empórios de produtos em conserva, além de vários livros legais e cartões inspirados.

Mas o que mais me inquietava, na hora de responder às tais fichas pessoais, era o item Esporte Predileto. Para não causar confusão nem constrangimentos, a minha resposta era sempre a mesma: tênis. Quando na verdade o que eu gostaria mesmo de escrever era: Pelada.

Isso mesmo, Pelada. Três contra três, quatro contra quatro, cinco contra cinco, seis contra seis… e por aí vai. Sem goleiro, com gol caixote, todo mundo de sunga ou calção e com uma bola de gomos preto e branca, para que a gente pudesse enxergá-la mesmo depois que o sol se punha, pois se estivesse 3X3, quem marcasse o primeiro gol ganharia o jogo e encerraria a partida.

Na pelada de praia não tinha juiz nem bandeirinha, só o gol caixote  de menos de meio metro, delimitado por dois galhos de árvore ou duas sandálias Havaianas. Ali você corria o jogo todo, atacava e defendia, muito antes desse estilo de jogo ser lançado pela seleção holandesa. Os fora de forma iam se cansando e ficando mais na defesa, protegendo o gol caixote, enquanto os demais brigavam pela bola, disputando lance a lance de forma frenética e às vezes até viril, suscitando inúmeras discussões sobre se havia ou não havia sido falta. 

No final da partida, todos se dirigiam para o mar. Para tirar a areia do corpo e tentar amenizar as dores nas canelas, descansando na água salgada e recobrando o fôlego. Santo remédio, melhor que qualquer massagem ou sauna.

Esse era e continua sendo o meu esporte favorito, pelo resto da vida, embora não o pratique mais. Primeiro, porque não moro mais de frente para o mar, segundo porque não tenho as tardes livres para praticar esportes, terceiro porque recebi três fraturas no queixo numa disputa de bola e larguei de jogar futebol faz algum tempo e , por último, porque , como bom esportista cachorro – que precisa de uma bolinha para correr atrás – descobri no tênis uma nova paixão. Disse paixão. Porque amor mesmo eu tinha era pela Pelada, nua e crua, sem frescura nem sofisticação. O esporte mais comunitário do mundo.

Se mesmo assim você ainda não entendeu direito o que é uma Pelada, existe um quadro fantástico do grande Carybé  que mostra exatamente o ardor de um jogo de futebol improvisado –  na praia , no campo ou no terrão. Com dois círculos suspensos: a bola e o sol.

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