Mecanicamente, o rádio-relógio tocava às 5h30. Mecanicamente, levantava da cama , beijava uma medalhinha com a imagem de Nossa Senhora e agradecia a Deus por mais um dia. Mecanicamente, fazia xixi, bebia um gole d’água e descia para acordar meus filhos. Mecanicamente, descia para tomar café, levá-los para a escola e, em seguida, praticar algum esporte.Mecanicamente, voltada para casa, tomava banho, saía para o trabalho e só retornava à noite. Essa era a minha vida, diariamente.
Essa rotina foi abruptamente quebrada com a chegada da pandemia, que fez com que nos recolhêssemos às nossas casas. Para uns, a adaptação foi mais tranquila, para outros mais conturbada. No meu microcosmo senti isso claramente pela reação de cada um em casa.
Um de meus filhos, talvez o mais sonhador deles, passou a tocar piano, compôs uma música, começou a levantar peso para ficar mais forte e a cuidar com mais carinho do cachorro, dando-lhe banho e levando-o para passear durante o dia e a dormir ao seu lado todas as noites. Também raspou o cabelo com máquina zero , começou a fazer a barba e a usar umas roupas velhas que ficavam jogadas no fundo do armário.Ficou mais fera no Fortnite e começou a assistir uma série de TV interminável. Enquanto os outros discutiam e brigavam , com os nervos à flor da pele, ele flutuava pela casa e ficou muito triste quando o último peixinho do aquário morreu. Além disso, perdeu algumas aulas online, ficou em 3 recuperações e não entregou o trabalho de Artes sem nunca perder aquele ar fleumático e meio distante. E uma noite dessas me chamou para ver a lua, lua cheia, que estava linda no céu estrelado.