Em qualquer enquete com empresários esclarecidos para saber quais os nomes dos principais publicitários do país, sempre haverá uma concordância em cima de 5 ou 6 nomes. São aqueles de sempre , que não saem da mídia, que têm assessoria de imprensa paga para enfiá-los em tudo o que é meio de comunicação e que repetem os mesmos discursos sobre os muitos cases e trabalhos premiados, uns de verdade, outros fantasmas muito bem “esquentados”.
De cada 100 empresários consultados, talvez 1 ou 2 lembrem-se de citar o nome de Enio Mainardi nesse rol de notáveis. Ontem, aos 85 anos, Enio Mainardi se foi ,vitimado pela Covid-19, no mesmo dia em que o Brasil atingia a nefasta marca de 100 mil mortes provocadas pelo terrível vírus.
Rebelde, ácido, sem papas na língua, olhar alucinado, Enio foi fundador de uma das agências mais criativas e instigantes do final dos anos 70 e começo dos anos 80: a Proeme. Naquela época, só a DPZ tinha mais charme e prestígio no mercado publicitário.
Depois de vender a Proeme, Enio montou uma nova agência com o seu nome e ao longo de mais de 30 anos fez aquilo que melhor sabia fazer: conceituar. Ele conseguia fugir do lugar-comum, com campanhas e slogan memoráveis. Ao invés de produzir filmes para anunciantes que nunca foram anunciantes só para satisfazer ao próprio ego, ao invés de fazer lobby para ser jurado em Cannes, Enio produzia campanhas de verdade, que caiam na boca do povo e viravam bordão, davam identidade às marcas.
São dele conceitos como Bonzo não é ração, é refeição; Old Eigth, o bom uísque você conhece no dia seguinte e, principalmente o criado para uma marca de biscoitos: Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais.
Defensor do porte de armas, apresentador de um programa que simulava um júri popular em canal de TV, crítico contumaz da hipocrisia e canibalismo do mercado publicitário, Enio foi pouco a pouco se afastando do negócio da propaganda até encerrar sua agência e tornar-se um ativo provocador nas redes sociais.
Lembro-me de 3 passagens totalmente inusitadas que compartilhei com ele:a primeira, na apresentação para um seleto grupo de convidados da nova campanha da Calvin Klein, Luzes apagadas, os 10 comerciais que compunham a campanha são mostrados duas vezes para aquele grupo. Quando as luzes se acedem, Enio saca um revólver da cintura e dá dois tiros para o teto, em êxtase, dizendo que havia adorado aqueles comerciais, deixando todos os demais petrificados. A segunda, foi quando uma amiga dona de uma loja de móveis de design me ligou, meio tensa, dizendo que um publicitário de nome Enio havia gostado muito de uma cama que ela estava vendendo e que pedira para dormir na loja de sábado para domingo para testar a cama. Eu disse a ela que ele era meio louco, mas íntegro e que se dormisse bem na loja levaria a cama. Dito e feito, ela fez a venda na segunda-feira. E, por fim, quando fui visitar o Enio na agência do prédio das heras da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, perguntei a ele por que ter uma academia de boxe e ginástica dentro da agência. Ele, calmamente, me explicou que, praticando esportes, os funcionários ficavam mais saudáveis e atentos. Quando terminou de proferir a palavra “ atentos “me desferiu um soco rápido na boca do estômago que me deixou sem ar por cerca de 5 segundos. Sem perder o rebolado ele ainda ironizou: tá vendo, tá vendo… se estivesse bem preparado, saberia se defender… e continuou falando sem dar a menor bola para a minha falta de ar…
Esse era o Enio, de histórias folclóricas e campanhas brilhantes. Vou sentir saudades. Ele vai continuar sendo uma das pessoas que mais respeito na propaganda brasileira, independentemente do número de leões ganhos em Cannes.
2 respostas
Top esse texto!!! Parabéns!!!
Oi Fernando! Tudo bem?
Gostei muito de sua nota de Enio. Gra me diz que voce escreve contos curtos, mais nao sei como procurar os no blog. Beijo! Ines