Dia desses, um antigo colega de trabalho me ligou por engano. Disse que ia ligar para outra pessoa e, sem querer, acabou esbarrando na tecla e me chamando. Demos risadas, recordamos fatos do passado, falamos de outros colegas e nos despedimos. Se ele não clicar por descuido o meu número outra vez, talvez a gente nunca mais se fale.
Tem gente que sabe preservar as amizades, comentar as publicações de amigos nas redes sociais, ligar todos os anos no dia do aniversário e marcar happy-hours em barzinhos. Lembro-me de um cara que sentava à minha frente e que, toda a manhã, ligava com voz pesarosa para desejar os sentimentos pela morte de alguém. Em seguida, com um sorriso largo no rosto, ligava para amigos e amigas para desejar parabéns por mais um ano de vida. Primeiro, com voz grave. Logo em seguida, cantando com alegria. Eu, de frente para esse cara, compreendi que a pessoa precisa ter o dom, saber como cativar as pessoas, coisa que não sei fazer, definitivamente. Mal e mal, lembro-me dos aniversários de irmãos e parentes muito próximos, mas, confesso, não tenho o dom de saber nutrir e cativar uma amizade. No fundo, me comporto como um péssimo amigo. Embora guarde na memória momentos bons vividos com uma determinada pessoa, guardo essas lembranças só para mim, não faço postagens, não dialogo , não troco ideias, não elogio, não mando parabéns, nem desejo feliz ano novo. Se calha de receber uma ligação por engano, trato a pessoa do outro lado da linha com admiração e respeito. Mas não tenho o dom de nutrir, regar, alimentar e usufruir de uma amizade sincera. Talvez por decepções com algumas pessoas que considerava amigas de verdade, talvez por absoluta falta de tempo, talvez pela falta de regra em começar o dia desejando pêsames para os familiares de quem morreu e muitos anos de vida para quem naquele dia nasceu.
Sinto que a cada ano me afasto mais das pessoas em função de problemas diversos. E que a pandemia só fez agravar esse distanciamento. Não tenho saco, nem dom para as lives e discussões diárias que algumas pessoas fazem com amigos.Não tenho paciência em entrar em rodas de discussão na internet para falar mal de tudo e de todos.Não tenho tempo para ficar postando vídeos falando das minhas experiências triunfantes ou frustrações diárias .Prefiro ler um livro, ver um filme ou contatar um potencial novo cliente. Quando paro é porque alguém me avisa que o jantar já está na mesa ou que é hora de dormir. O tempo passa rápido, sorrateiro. E aquela música do Milton “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração…” me traz um sentimento estranho, como se estivesse deixando de fazer algo corretamente, mesmo sem saber o quê.