Blog – anotações, pensamentos e coisas do cotidiano.

Valores

Existem ensinamentos que você leva pra vida toda. Como o dia em que ganhei o meu primeiro dinheiro. Todo o domingo havia uma feira-livre montada num lugar relativamente longe de onde eu morava em Santos.  Eles começavam a montar as barracas e a descarregar as mercadorias ainda de noite, antes do dia clarear. Como o plástico ainda não havia se transformado nessa praga mundial ,  os feirantes compravam jornais velhos para embrulhar as mercadorias.As pessoas levavam carrinhos de feira de alumínio e iam acomodando  as frutas , verduras e legumes embaladas nos tais jornais velhos.

Sem  dizer nada, meu avô construiu uma espécie de carrinho de rolemã com um cabo de ferro longo e me mandou bater de porta em porta na vizinhança para pedir jornais velhos. Todo o jornal recolhido foi sendo colocado no tal carrinho e o restante acomodado no carrinho de feira que tínhamos em casa. No sábado, tanto o carrinho de rolemã como o carrinho de feira estavam abarrotados de jornais velhos que eu recolhera sozinho da minha casa e das casas vizinhas. Meu avô , sempre seco e comedido nas palavras, falou para eu dormir mais cedo pois iria me acordar de madrugada.

Ele me obrigou a carregar pelas ruas ainda desertas o tal carrinho cheio de jornais. Por diversas vezes, tive que parar para recuperar o fôlego. Íamos pelo asfalto, bem rente ao meio-fio , pois pela calçada o carrinho ameaçava tombar em razão do piso irregular. Meu avô ia atrás , observando o movimento dos poucos carros que passavam.

Finalmente,chegamos  à feira. Grande agitação, com os feirantes preparando as barracas para receber os primeiros fregueses que já circulavam pelo corredor central. Olhei para o meu avô e pedi ajuda. Ele me mandou ir sozinho ao encontro dos feirantes para lhes oferecer os meus jornais, observando-me à distância e dizendo-me o que deveria falar. Nos primeiros contatos estava muito envergonhado , mas, pouco a pouco ,fui me soltando. O dinheiro arrecadado eu imediatamente repassava ao meu avô que me apontava as pessoas com quem devia falar para oferecer os jornais.

Vendemos quase 80% dos jornais para mais de 15 diferentes barracas. De forma solene, meu avô juntou todo o dinheiro arrecadado e me disse: parabéns,tome:  esse dinheiro é seu! Só então me caiu a ficha e ali eu entendi porque meu avô não tinha me ajudado a empurrar o carrinho, não tinha me ajudado a vender os jornais nem ido comigo bater na porta dos vizinhos. Ele queria que eu conquistasse aquele dinheiro sozinho, graças ao meu esforço.

Naquele dia eu descobri que se quisesse ter alguma coisa na vida, tinha que lutar para conquistá-la. E é isso o que faço até hoje, graças ao ensinamento que meu avô me passou naquela manhã de domingo.Quer moleza, senta no pudim…

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.