Quando meu avô saiu de uma aldeia no começo do século XX para escapar da gripe espanhola que estava dizimando parte da população européia de forma assustadoramente rápida, o navio que o transportava fez escala em Santos e depois seguiu para Buenos Aires. Meu avô desceu em Santos e alguns parentes seguiram rumo a Argentina.
Caso meu avô não tivesse desembarcado no Brasil e seguido viagem com aqueles parentes e amigos espanhóis, a árvore genealógica da minha família teria outra ramificação, outras personagens. Ao invés de irmãos, hermanos. Ao invés de acaí e tapioca, dulce de leche e alfajor. Ao invés de Pelé, Maradona.
Lembro-me de uma viagem que meu avô fez ao país vizinho para visitar os primos e amigos e dos presentes que ganhamos daqueles parentes que nunca conhecemos pessoalmente.Lembro-me também de uma tal Tia Rosa, matriarca da família portenha, com quem meu avô trocava correspondências.
Esses parentes argentinos sempre atiçaram minha imaginação e sempre tive interesse em conhecê-los, mas, por inúmeras razões, nunca levei a cabo esse projeto. Fui a trabalho e a lazer várias vezes ao país vizinho, mas sempre arrumava uma desculpa para não procurá-los.
Talvez por isso, e ao contrário da grande maioria dos brasileiros, nutro uma sincera admiração pela Argentina. Pela arquitetura, pelo cinema, pelo futebol, pelos vinhos, pela região da Patagônia, pela culinária e tudo o mais. Torço, de verdade, para que esse novo presidente consiga recuperar a economia e a autoestima do povo argentino. Seu dircurso tem coerência e suas primeiras medidas de corte drástico de gastos faz todo o sentido. Sem orçamentos secretos, sem medidas provisórias, sem jabuticabas, o novo governante tem uma coisa que nós não temos: vergonha na cara.
Aqui, ainda acreditamos em Odoricos Paraguaçus e em populistas que nos mantêm na ignorância, enquanto nossos vizinhos, mesmo pobres e com uma inflação de 140%, estão abrindo o país ao mercado, à livre iniciativa, às privatizações. Menos Estado, mais liberdade econômica. Menos subserviência, mais empreendedorismo. Progresso ao invés de retrocesso.
Se vai dar certo por lá, na Argentina, não sei. Por enquanto é só uma luz no fim do túnel. Mas é melhor ter luz do que fumaça de carvão queimando à espera de uma picanha que nunca chega…