Acordar pode ser perigoso. Principalmente naquele dia em que a agenda está vazia, os clientes estão satisfeitos, as campanhas estão rodando e alguém ainda te pergunta: você tem alguma coisa hoje? Na resposta, você já começa a ficar ressabiado: não, nada! É aí que mora o perigo. Essa calmaria, essa falta de vento são prenúncios de trovões e tempestades. Já vi colegas afundando na bebida, no pó, na putaria, em dívidas. Essa profissão de publicitário é muito ingrata. De manhã você é um gênio, na hora do almoço não fez mais do que a sua obrigação e à noite um bosta que não entendeu nada do briefing e por isso não ganhou a concorrência .
É justamente nesses dias de calmaria que costumam vir os trens na contramão. E os pepinos para serem descascados, sem vaselina. Mas isso para mim nunca foi um fardo. Costumo não ficar nem muito eufórico quando recebo uma notícia boa, nem muito triste quando recebo uma notícia ruim. Isso garante minha lucidez e um pouco de autoestima. Isso vale também quando ganho um prêmio ou deixo de ganhar.
Posso já ter tido uma série de cargos pomposos. Mas a minha função sempre será a de estagiário de redação. Daquele cara que , ao descobrir um caminho, uma idéia ou um conceito, sente uma gota de suor pingar.