Alguém uma vez me perguntou o que faria se herdasse uma fortuna ou ganhasse sozinho na MegaSena. Respondi de pronto que não mudaria em quase nada a minha vida, mas que iria atrás de uma obra de Picasso ou de Miró – dois pintores espanhóis cujo trabalho admiro muito, mas que valem uma fábula.
Em meio a esse confinamento li recentemente a biografia de Pablo Picasso e fiquei chocado com o rastro de morte, tristeza, depressão e intrigas que ele foi deixando pelo caminho. Quatro filhos, cinco mulheres, cinco fases distintas de pinturas, milhares de quadros, numa existência perpassada por muitos sobressaltos em seus 91 anos de vida. Picasso gostava de 3 coisas na vida: mulheres, dinheiro e conflitos, embora dissesse que “a única coisa que amo é a criação”. Como criador, um gênio.Como criatura, alguém mesquinho e cruel, encarnando a figura mítica do Minotauro como um símbolo de supremacia e força nas arenas da vida.
Muitas vezes, nas entrevistas que fazia com pretendentes a vagas na Criação das agências em que trabalhava, deixei-me levar pelos portfólios, pelos trabalhos apresentados. Só olhava a pasta( onde esses trabalhos eram guardados) e não olhava os olhos, não prestava atenção no ser humano. Esse erro me levou a contratar algumas pessoas desagregadoras que não contribuíram em nada para a leveza do dia-a-dia e o convívio coletivo, muito embora já houvessem ganhado prêmios e promoções em outros lugares. Olhava para o criador, mas negligenciava a criatura. Com o tempo aprendi a lição , depois de algumas decepções com criadores de má índole. E, hoje, se ganhasse na Loteria, acho que investiria meu dinheiro num Miró.