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Black

Ele era uma figura extremamente simpática e cativante: João dos Discos. Ele entrava na maioria das agências de propaganda, primeiro vendendo Lps, depois Cds, vídeos, BlueRay e tudo o mais que fizesse algum tipo de som. Até na letra do Hino Nacional ele cismou em  mexer. Trazia nas suas malas de mão, hermeticamente fechadas,  um repertório vastíssimo de títulos e gêneros musicais, justamente para não perder a viagem e voltar para casa mais leve.

Embora goste muito de música, vez por outra perguntava ao João que tipo de música era aquela de um CD com um negro ou uma negra na capa. Ele, que era azul de tão negro, olhava para mim e calmamente dizia: pode levar, é preto… e você já viu preto que canta mal? Foi assim que descobri Cassandra Wilson,  outros sons de Otis Redding, Corinne Bailey Rae e mais uma série de músicos  fenomenais.Ele falava com sinceridade, aquele negão gente boa. E deixava a todos nós desconcertados, cheios de pruridos  e com aquele discursinho politicamente correto. Black is beautiful.

Num domingo qualquer fui levar meu filho para uma exposição no  Instituto  Tomie  Ohtake. Era trabalho de escola, valia ponto e mostrava as diversas formas de racismo, no Brasil e no mundo, Desde o tempo da escravidão no país, passando por  Zumbi de Palmares até chegar a Angela Davis e Martin Luther King como exemplos gringos de negros discriminados. Lá pelas tantas meu filho pergunta: mas, afinal, pai,  o que é racismo? Sem pensar muito, respondi: é uma forma burra de se tentar julgar uma pessoa pela cor da sua pele. O maior escroto que o papai já conheceu na vida era loiro de olhos azuis. Tenho quase certeza que o segurança negro do museu deu um sorriso de canto de boca, depois de ouvir nosso diálogo.

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