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Ano Novo

O cara que fracionou o tempo, dividiu os meses e inventou a passagem de ano realmente é um gênio. Ele conseguiu fazer com que todos acreditassem que a cada 12 meses tudo muda para melhor, que as pessoas recuperam a fé e a esperança, que tudo se renova.Brilhante. Ninguém quer saber que é só mais um dia que nasce, que é só mais uma volta da Terra em torno do Sol.

Em seus isolamentos ou refúgios paradisíacos, as pessoas querem mesmo é postar felicidade, frases de efeito e encarar sem medo o velho  corona neste ano que se inicia.  O passado ficou para trás, o presente é comemorado com fogos, risos, bebidas e sete ondas para pular. E o futuro …ah, esse ano  vai ser diferente, tudo vai mudar…com vacina vamos voltar a nos encontrar…

Entra ano, sai ano é sempre a mesma coisa. Porém,  por mais alva que seja a roupa do reveillón, existe um clima opaco no ar. Pessoas de máscaras escondendo  um sorriso amarelo,  sem motivos para comemorar.  Talvez pela falta de perspectiva econômica e de oportunidades de empregos , num horizonte sombrio. Um  clima de incerteza, mesmo com a musiquinha “hoje é um novo dia, de um novo tempo…”pairando no ar. Um clima que  só  não atinge a uma minoria,  aqueles que riem à toa e  comemoram  mais um ano de desigualdade social, espocando  champagne francês, tirando suas  máscaras em Trancoso  ou em ilhas privés para  realizar festas exclusivas e com ingressos caríssimos, mesmo cercados de Covid-19 por todos os lados. 

Não desejo mal a ninguém, mas ao me deparar com  notícias que mostram a orla de praias totalmente cercadas e proibidas  aos mortais para as comemorações de final de ano, e ao ver um convite secreto mandado via whattsapp para cerca de 500 pessoas de uma festa de reveillón fechada, pensei que os caras que promovem esses eventos chics , subornando fiscais e pagando staffs e seguranças a peso de ouro só para garantir o brilho do evento, bem que podiam ser um dos centenas de infectados que vão engrossar o saldo de contaminados a partir de 15 de janeiro, como rescaldo das festas de fim de ano. Talvez assim, via whatsapp, todos os bacanas de plantão ficassem sabendo que a regra vale para todos, não só para os menos endinheirados. E que daqui ninguém sai vivo, mesmo exibindo pulseirinha vip fluorescente na entrada. Do céu ou do inferno.

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