Até então, eu tinha visto duas pessoas mortas: a mãe de um amigo meu que falecera de câncer e o meu avô. Em ambos os casos, em velórios bonitos, com os caixões rodeados de flores e os mortos com expressão serena e bem-vestidos.
No meu primeiro dia como repórter policial me vi jogado numa casa de cômodos imunda, com uma mulher esfaqueada e morta dentro de um guarda-roupa. Tinha levado mais de 50 facadas. O fotógrafo ao meu lado, já velho de guerra, ainda filosofou para tentar quebrar o gelo, pois permanecia petrificado: repare, que num crime com revólver a pessoa dá um tiro e foge, já com uma arma branca, ela dá a primeira facada e não para mais…
Lembrei-me imediatamente da cena do chuveiro do filme Psicose, de Hitchcock, com efeito sonoro e tudo. A imagem da mulher não me saia da cabeça. Comecei tomando meio comprimido para dormir. Depois de mais de 2 anos de jornalismo policial , acumulei histórias horripilantes e uma infinidade de crimes, chacinas, acidentes , estupros, rebeliões, queima de arquivos e tudo aquilo que o mundo-cão te apresenta. Nessa época, já tomava um comprimido inteiro. E quando me ligaram para oferecer uma vaga de emprego numa agência de propaganda, pensei com os meu botões: daqui pra frente, se for falar de presunto, vai ser presunto de verdade, como Sadia, Perdigão…