Blog – anotações, pensamentos e coisas do cotidiano.

Cuidado: Frágil

Tínhamos acabado de fazer uma campanha comunitária para uma associação de proteção a animais, pois na época trabalhávamos para Pedigree, Frolic e Champ, três marcas de ração, e isso nos inspirou. A representante de uma entidade que lutava contra o abuso sexual na infância e na adolescência veio nos procurar, dizendo que havia gostado muito da forma como tratamos o tema dos animais e nos pediu uma campanha para conscientizar as pessoas sobre um tema bem mais árido e silencioso: o estupro de menores. Até então, eu sabia pouco ou muito pouco sobre estupros e violência sexual contra crianças.

A nossa reunião foi bem no final do dia, quase noite. Vieram duas mulheres. Não sei porque mas eu naquele dia estava particularmente feliz, talvez porque tivesse dormido bem na noite anterior ou conseguido almoçar com calma. 

Ao final da reunião, após a explanação de diversos números e dados estatísticos, todos ali naquela sala estavam atônitos. Entrei feliz e sai derrubado, sentindo um gosto amargo na boca.

A cada 11 minutos uma criança ou adolescente é  estuprada no Brasil. De cada 10 estupros, 8 são praticados por pessoas próximas das vitimas. O crime tem um altíssimo grau de subnotificação, pelo medo que os menores têm em denunciar o agressor. Pais, tios , padrastos e vizinhos encabeçam o perfil dos estupradores. “Se fui eu quem plantei essa frutinha, se fui eu quem tratei dela e vi ela crescer, por que vou deixar para o vizinho comer primeiro?” – depoimento de um pai estuprador. 

É chocante, é terrível , é deprimente. Todas essas lembranças vieram à tona recentemente, ao ler sobre o caso da menina de 10 anos que havia sido abusada pelo tio e estava grávida. Pior que isso, só o piquete na porta do hospital com protestos contra o aborto induzido. O que as pessoas não fazem para estar nos trending topics das redes sociais, para virarem notícia, para aparecerem na mídia, mesmo falando só bobagens, mesmo só pregando uma ideologia burra. 

Penso só na menina, estuprada desde os 6 anos. Ela devia estar brincando  de boneca, não servir de boneca inflável para um tarado. Quais sequelas físicas e mentais essa menina vai carregar para o resto da vida? Como ela vai lidar com a sexualidade na adolescência e  na vida adulta? Qual o desejo dela de engravidar um dia?

Afora todas essas recordações, lembrei-me também da campanha que apresentamos: um pote de Danoninho aberto, com uma colher de pau ao lado, um balde de plástico com uma pá de construção ao lado e um caminhão de brinquedo com um saco de cimento ao lado. Elementos que não se encaixam, que não cabem dentro de um orifício pequeno. Elementos que não deveriam existir, mas que, infelizmente, estão bem aqui, ao nosso lado. Impunes.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.