Não gosto de homenagens fúnebres. Pois como diz o nosso Presidente em sua lógica simplista “e daí? Um dia todo mundo morre mesmo” – referindo-se aos milhares de brasileiros mortos pelo Coronavirus . Esses índices vêm contribuindo para que o país suba cada vez mais naquele mórbido ranking de defuntos contabilizados. Já estamos na vice-liderança e como o Brasil não ganha nada há anos, quem sabe a gente consiga ultrapassar os Estados Unidos e se transformar no país líder mundial em incompetência no enfrentamento de uma pandemia.
E como diria aquele filósofo de velórios, daqui ninguém sai vivo… e caixão não tem gaveta…
Mas, hoje, eu resolvi prestar uma homenagem a um casal que me fez ver que a velhice não precisa ser necessariamente um período de sombras e isolamento.
Por que será que depois de velhas as pessoas ficam chatas, ranzinzas e mal-humoradas? Além da falta de dinheiro, das dores pelo corpo, os idosos parece que não têm paciência para nada. Mas um casal de tios fugia a essa regra. Eles dançavam, bebiam, jogavam e , mais do que tudo, riam. Viviam a vida com alegria. Eram bonitos, divertidos, elegantes e cultos. Adoravam música, de Dorival Caymmi a Genesis, adoravam receber , adoravam contar histórias. Se vestiam muito bem e sabiam como cativar a todos. Até eu, meio jeca, meio tímido, ficava à vontade quando ia encontrá-los nas festas de Reveillon, para abrir o ano com chave de ouro. Numa dessas festas, já meio de fogo, tentei pegar um peixinho vivo que nadava num pote dentro de uma bandeja repleta de canapés. Ao ver a cena, meu tio se aproximou e , diante do olhar atônito do garçom, cochichou no meu ouvido: com tanta comida boa, e você querendo devorar o coitado do peixinho… e depois soltou uma gargalhada. Já faz um tempo que meu tio se foi. E hoje foi a vez da minha tia partir, depois de lutar anos contra o mal de Alzheimer. Aonde quer que vocês dois estejam, continuem dançando e rindo.
3 respostas
Esses dois era realmente tudo isso!! Incrível seu relato!! Como neta desses dois anjos da minha vida, fico tão feliz deles terem deixado os sobrinhos com lembranças tão boas!! Muito bom ouvir isso agora que não tenho mais eles perto de mim. Um beijo enorme e obrigada
Falei de coração, tudo o que sentia por eles. Seus avós eram pessoas especiais que sabiam levar a vida em vida.
Luiza , muito bom mesmo ter essa lembrança de pessoas tão especiais num texto cheio de sensibilidade .