Dizem que o amor se transforma com o tempo. Vira companheirismo e cumplicidade. O tempo muda tudo ou tudo muda com o tempo. O tesão cede lugar à paciência, o inesperado perde espaço para o previsível.
Pensei nisso tudo enquanto observava um casal que entrou no cimena junto comigo para uma verdadeira maratona de 3h40 de filme, o último trabalho de Martin Scorcese.
Ela na cadeira de rodas chega até a beira da escada. O marido a levanta e, lentamente, desce dois degraus e a segura com firmeza até acomodá-la na primeira cadeira da mesma fileira onde eu estava sentado. Ela não sorri , nem olha de lado. Ele levanta-se vai até o bar e volta com uma garrafa de água para ela. Ele tem o rosto sereno e , não sei porque, sinto que está feliz, talvez por ter convencido a mulher a essa “aventura” de sair de casa e ir até o cinema. Imagino quantas horas antes ela se preparou para estar agora ali sentada, arrumada e bem-vestida, prestes a assistir Assassinos da Lua das Flores.
O filme é longo, sem trilha sonora e mostra de maneira brilhante como foi o aniquilamento dos índios norte-americanos, com pitadas até de maçonaria e envenenamento por heroína, disfarçada de medicamento milagroso.
Quando as luzes se acendem, todos começam a deixar o cinema e o casal permanence sentado. Ele levanta-se e antes de erguer a mulher para o árduo caminho de volta até a cadeira de rodas, dá-lhe um beijo na testa, como que agradecendo pelo esforço dela em lhe fazer companhia e ido àquele programa dominical.
Pela primeira vez, a mulher sorri, agarra-se à mão do marido, ergue o corpo e , bem devagar, começa a subir os dois lances de escada.
Me retiro pela outra saída, para que o casal não perceba que estou a observá-los. Mas aquela cena, do beijo na testa, me faz esquecer por alguns momentos toda a a crueldade retratada na tela contra os pobres pele -vermelhas americanos. De uma forma ou de outra, nos adaptamos. Por mais estranha que a vida se apresente.