Fala-se muito de poluição ambiental, monóxido de carbono, camada de ozônio, baixa umidade do ar e tudo o mais. Mas quase ninguém fala ou discute a poluição sonora. De uns tempos para cá, comecei a meditar. Acordo bem cedo, sento-me num lugar totalmente isolado e vazio, sem celular, rádio ou qualquer outro tentador artefato eletrônico ao redor que possa distrair minha atenção.Apenas uma toalha repleta de estrelas que estendo no chão. Muitas vezes ainda é noite quando sento nesse local. Fecho os olhos e começo a fazer exercícios de respiração e mentalização de momentos bons. É incrível como surgem lembranças . Assim, do nada, vêm à mente um momento de infância, o galinheiro do meu avô, um passeio de caiaque no mar, o rosto de um amigo, um parente, um colega de trabalho, o local de uma viagem, um monumento, uma festa… fica tudo guardado ali, num baú da mente, em alguma gaveta de lembranças. Vez por outra , entra também alguma lembrança ruim que , rapidamente, tento expulsar.
Quem me faz voltar à realidade é o som dos pássaros. Como é lindo ouvir os diferentes sons dos pássaros de olhos fechados. Uma vez, não resiste e quebrei a meditação, pois comecei a ouvir sons estridentes e estranhos e quando abri os olhos me deparei com um casal de araras a poucos metros de onde estava. Mesmo com o massacre urbano, a ganância e a total falta de planejamento de São Paulo, as árvores resistem. E , por tabela, os pássaros também.
Com o correr das horas, esses sons bucólicos vão mudando . Saem os pássaros, entram os carros, as motos, os aviões, as freadas, as buzinas, o bate-estaca de mais um prédio, a sirene da ambulância, a sirene da polícia.
Para fugir de tudo isso, cada vez mais pessoas nas ruas, nos vagões de metrô e até no trabalho se valem dos fones de ouvido para camuflar os neuróticos sons dessa metrópole caótica.
As pessoas não se dão conta do mal que essa poluição sonora provoca não só aos tímpanos como também à mente. E com crises de ansiedade e mau-humor contiuam buzinando dentro dos túneis, enquanto os motoboys fazem o backing sonoro com aquela buzininha chata , pedindo passagem .
Essa horrorosa melodia urbana do dia a dia nem os pássaros aguentam . Por isso acordam cedo e depois desaparecem. Assim como eu.