Meu velho e valente carro tem um estribo de tão alto que é. Nele, as pessoas apoiam o pé antes de dar o impulso com o corpo para entrar. Foi nesse estribo que um menino mirrado , entre 11 e13 anos, teve que subir para colocar um revólver na minha cabeça. Era um dia de congestionamento, final de tarde e um calor de quase 40º em São Paulo. Um daqueles dias em que você puxa o ar e não vem nada, que a única coisa que você quer é chegar em casa, tirar a roupa e tomar um banho. Eu nunca gostei de ar condicionado e, burramente, mantinha o meu vidro aberto, mesmo estando com um relógio Breitling no pulso, modelo original, estilo aviador, fabricado no ano em que nasci e que havia ganho de presente de aniversário 3 anos antes, dado pela minha mulher.O menino não pediu carteira, celular … ele só gritava que queria o relógio. Ao meu lado, as pessoas em pé dentro de um ônibus lotado me fitavam com os olhos arregalados, apertando com mais força o cano de metal onde apoiavam uma das mãos. Aprendi que não devia fazer gestos rápidos e lentamente abri a pulseira e o fecho do relógio , tirei-o do pulso e o entreguei ao menino. Extremante nervoso e possivelmente sob o efeito de uma pedra de crack que acabara de fumar, o moleque franzino inseria-se na categoria dos “dedos moles”, segundo a própria definição de policiais, aquele tipo de bandido de rua que atira sem pestanejar pois tem medo de ser atacado e desarmado por alguém mais encorpado. Ele também não me olhou nos olhos, suas pupilas arregaladas só miravam o relógio . Para meu alívio, na hora em que sentiu o relógio na palma da mão, ele abaixou o 38 que parecia gigante na mão dele, desceu do estribo do meu carro e saiu correndo em debandada por entre os carros, em zig-zag, com medo de ser apanhado. Eu e as pessoas de pé no ônibus parado ao lado do meu carro respiramos aliviados. Virei na primeira esquina, parei o carro e minhas pernas começaram a tremer. Depois meu corpo todo começou a tremer, minha respiração ficou ofegante. Por alguns minutos, aquela carga de adrenalina me deixou paralisado, até me recompor e seguir caminho. Mesmo assim, continuei gostando de relógios. Usava-os diariamente, especialmente um deles que não era de nenhuma grife famosa. Sentia falta quando, por algum motivo, saia para trabalhar sem ele no pulso. Usava muito o ponteiro dos segundos, para cronometrar filmes, spots de rádios, vídeos etc. Ele me ajudava a saber o que cabia em 15 ou 30 segundos ou em 1 minuto ou mais para não ter que ouvir depois que o texto havia “estourado”.Durante um bom tempo, relutei em dar ou emprestar algum dos meus exemplares para um dos meus filhos, apaixonado por relógios, pois toda a vez me vinha à mente aquele episódio do cano de revólver na minha cabeça. Com a pandemia, fui perdendo a vontade de usar relógio para ficar dentro de casa, ao mesmo tempo em que o mundo abdicava de uma série de luxos supérfluos, para desespero daqueles que sustentam suas imagens no consumo desenfreado. Meu lindo relógio foi fazer companhia aos demais, no fundo de uma gaveta. Dia desses, o mesmo filho me perguntou dos relógios. Olhei à volta, senti segurança pela primeira vez em muitos anos e prometi a ele que, no meu retorno, o presentearia com um dos modelos. Meu único medo é ser assaltado no caminho para o aeroporto, pois , infelizmente, no Brasil, só se anda com relógio no pulso se você estiver num carro blindado…