É impressionante como a mente da gente funciona. Às vezes você acha que deletou um trauma, mas ele está ali, guardado. Há quase 50 anos, a arrebentação na praia do Tombo, no Guarujá estava muito forte. Resolvi subir numas pedras, joguei a prancha em mar aberto, depois da linha de arrebentação e pulei no mar em seguida. A primeira luta foi tentar chegar até a prancha.Naquela época não existia aquela cordinha de borracha(leash) e, à cada onda perdida, tínhamos que nadar até o raso para resgatar a prancha. Depois de muito nadar, finalmente consegui subir na prancha. Só que a correnteza estava muito forte e mesmo com o vigor dos meus 15,16 anos não conseguia me aproximar da linha de arrebentação. Pelo contrário, o mar me jogava cada vez mais para longe, mais para mar aberto. O vento começava a bater forte e via a praia e os demais surfistas ficando cada vez mais distantes. A única coisa que fazia era remar, remar, remar. Tinha muito medo de perder a prancha e que uma onda me jogasse contra as pedras de forma violenta. Não via ninguém por perto, estava sozinho. Durante horas, busquei alternativas , tracei caminhos imaginários para fugir das pedras e da correnteza, pedi ajuda a Deus . Estava exausto e tenso quando finalmente consegui pegar uma onda deitado que quebrou de forma violenta me separando da prancha. Em meio a caldos e mais caldos fui afundando, puxando a respiração e me esforçando para pegar “jacarés”que me levassem até o raso. Quando finalmente senti os meus pés tocando na areia , amoleci e quase como um bêbado fui ao encontro de minha prancha que um amigo segurava, com os olhos arregalados e pedindo para eu deitar na areia.
Corta. Dia desses estava acompanhando o relato de uma médica infectologista relatando a sensação das pessoas que morrem “afogadas” nos corredores dos hospitais, sem oxigênio, sem UTI, sem ar para respirar. Naquela noite, dormi cedo, cansado, apaguei. De madrugada, em meio a um sonho/ pesadelo, todas as imagens relatadas acima voltaram, em rápidos flashbacks. Acordei sobressaltado, suado e ofegante, coração acelerado, boca seca. O tempo lá fora continua ruim.