Tive poucos apelidos ao longo da vida, pelo menos que eu saiba. O mais famoso foi Casca. Até hoje, alguns velhos amigos santistas ainda me chamam de Casca quando me encontram. Curtia tanto aquele apelido que até pedi para o shapper que fez a minha segunda prancha de surf que criasse um logotipo com as letras KSK , que era quase que um “carimbo” meu. Nas poucas vezes em que me atrevi a enviar flores com dedicatória para uma namorada, assinava com KSK, como uma espécie de código misterioso.
Agora, o meu primeiro apelido eu ganhei com menos de 10 anos, no colégio: Bolinha. Nessa idade, com menos de 1 metro e meio eu já pesava 68 quilos. Era tão gordo, que todas as minhas roupas tinham que ser feitas numa costureira. Se alguém quisesse me dar um presente, só podia ser lenço ou cinto, porque todo o resto ficava grande demais em comparação com a minha cintura.
Além de comer demais eu tinha disfunção de tireóide . Lembro que nas fotos da minha primeira comunhão eu era tão gordo que as bochechas me deixavam com os olhos quase fechados, parecia japonês. Mas o pior mesmo era no verão, em que era obrigado a passar creme nas coxas que roçavam uma na outra e a pele ficava irritada, em carne viva.
Mesmo assim, jogava bola e corria muito balançando a pança pra cima e pra baixo e ficando vermelho e ofegante com todo aquele peso. Quase sempre pedia para sair antes do final das partidas, completamente exausto.Minha mãe me levou a um médico que disse que o me coração tinha tanta gordura em volta que não tinha espaço para bater quando exigido. Foi aí que comcei um rígido regime, com remédios pesados. Isso tolheu o meu crescimento e tirou um pouco do meu humor. Principalmente quando tive que trocar doces e bolos por frutas e verduras.
Depois desse regime nunca mais engordei e até hoje me habituei a uma alimentação saudável que fui obrigado a fazer lá atrás.Pelo fato do meu pai ser amazonense, desde cedo e muito antes de virar moda me apaixonei por açaí, cupuaçu , tapioca e tudo o mais.
Por trabalhar em Comunicaçào há mais de 30 anos, convivi com a tirania da moda e do peso. Esse preconceito do corpo ideal e esquálido perdurou por décadas. Mas , atualmente, vejo um movimento cada vez maior pelo “real people”, gente de verdade, com rugas, cabelos brancos e gordura. Barriga, peito grande, papada, bochecha e tudo mais. A vida como ela é. Gente de verdade. E feliz. Da mesma forma que o Bolinha era, mesmo sendo o cara mais gordo da classe.